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PONTO DE INFLEXÃO DO BOLSONARISMO E DERROTA EM 2022 E 2025

  • sryuann
  • 18 de dez. de 2025
  • 39 min de leitura

Atualizado: 22 de dez. de 2025



Nesse artigo pretendo analisar o estado atualdo bolsonarismo e as condições que levaram a esses estado de coisas.


MEIOS DE PODER ESTRATÉGICOS


Esses são os principais aspectos estratégicos que foram determinantes para levar o bolsonarismo a situação atual de 2025, com Bolsonaro preso, humilhado, isolado e sem resistência da militância.



GRANDE MÍDIA

O governo de Bolsonaro mostrou que a grande mídia ainda exerce grande influência na população, apesar do declínio e do crescimento da internet e das redes sociais. Ficou claro que o poder da máquina midiática do consórcio Globo-Record-Band-SBT-RedeTV detém o controle principal da narrativa e possui grande capacidade de exercer pressão sobre os agentes políticos.


Parece que os políticos e o Poder Judiciário têm mais medo de ataques e críticas vindos da grande mídia do que das redes sociais. Isso ficou evidente quando as decisões de Gilmar Mendes, para dificultar processos de impeachment de ministros, e de Dias Toffoli, de levar para o Supremo e paralisar todas as investigações do caso do Banco Master, foram duramente criticadas pela grande mídia, levando-os a revogar suas decisões dias depois. Outro caso foi a queda de Carlos Lupi do Ministério da Previdência, quando explodiu o caso dos descontos fraudulentos do INSS.


Ainda não tenho dados técnicos e estatísticos, mas acredito que o alcance difuso somado das pessoas nas redes sociais ainda seja maior que o da grande mídia. Porém, acredito que, pelo aspecto formal e pela análise de especialistas, a grande mídia tem mais poder de influenciar a opinião pública. Não em pontos absurdos, como fazer o povo acreditar que Bolsonaro de fato é uma ameaça à democracia e deu um golpe, mas em mostrar que os desvios do INSS foram culpa do governo Lula ou que as taxas de Donald Trump ao Brasil foram culpa dos posicionamentos geopolíticos de Lula, e não do lobby de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo nos EUA.


Acredito que grande parte da população ainda vê a grande mídia como isenta nas divulgações de notícias e análises políticas. Até porque nem todo mundo tem interesse integral em política para fazer o contraponto. O povo ainda é muito ignorante nos aspectos técnicos da política, economia e relações internacionais. Apesar do declínio, a TV aberta e os jornais ainda alcançam de 70% a 80% da população em horários nobres, com investimentos em mídia totalizando R$ 4,7 bilhões no primeiro trimestre de 2025 (crescimento de 3,14%). Estudos mostram que a mídia tradicional é vista como mais "isenta" por 40% a 50% dos brasileiros, especialmente em faixas etárias acima de 45 anos, devido à percepção de profissionalismo e análise especializada. Isso explica as pressões sobre figuras como Mendes ou Toffoli: críticas midiáticas amplificam o escrutínio público, forçando reversões.


Nesse ponto de vista, fica claro que é fundamental tomar o controle da grande mídia e da imprensa. Até porque a mídia internacional usa a grande imprensa como fonte para analisar a política interna do Brasil. Muitos canais conservadores falam muito sobre política usando uma linguagem e profundidade muitas vezes inacessíveis para a maioria da população. Precisamos de programas que conversem com o dia a dia das pessoas em temas leves e de entretenimento. Muitas vezes a pessoa quer assistir a um repórter para acompanhar o almoço ou tomar café à noite enquanto vai organizando a casa. Esse tipo de mídia precisa ser leve e tratar de assuntos diversos, porque muitas vezes a política fica densa e depressiva. Ninguém vai sintonizar um canal conservador na TV para assistir a um analista falar sobre Foro de São Paulo, Karl Marx ou Olavo de Carvalho, mas sim para saber sobre a inflação, eventos, curiosidades, futebol, esportes, crimes que ocorreram, mudanças de leis que afetam sua vida, ou inauguração de obras e empresas. Esse tipo de conteúdo aumenta a base de usuários e o retorno com anunciantes.


Na internet também é a mesma coisa. Páginas como Metrópoles, Choquei, páginas de desenvolvimento pessoal, memes e podcasts de futebol estão entre as mais vistas, e seus apresentadores têm um viés que vai influenciando sutilmente a percepção pública sobre um espectro político. Precisamos estar nas vidas das pessoas durante todo o dia. A própria seleção de notícias e pautas já define que tipo de público você vai criar. Se você passa o tempo todo noticiando sobre violência contra a mulher, vai criar uma percepção de que todo homem é uma ameaça; mas, se você noticia atos de heroísmo e relacionamentos felizes, criará uma imagem de que homens são fundamentais e de que é possível ter um relacionamento feliz.


Por ter todo esse poder e influência, a grande mídia será uma grande aliada ou um péssimo inimigo. Mas aqui fica a pergunta: como reverter a hegemonia da esquerda na grande mídia? Como disputar a atenção das pessoas?


CONCENTRAÇÃO DA MÍDIA EM OLIGOPÓLIO

A concentração da mídia no Brasil, onde cinco grandes grupos (Globo, Record, SBT, Band e RedeTV!) dominam o cenário, não é um acidente, mas o resultado de um processo histórico que envolve política, tecnologia e falta de regulação.

Aqui estão os principais motivos que explicam esse fenômeno:


1. Herança da Ditadura Militar

A TV Globo, em especial, consolidou sua liderança durante o regime militar (1964-1985). Os governos da época viram na televisão uma ferramenta essencial para a "integração nacional".

  • Apoio Estatal: O regime favoreceu a criação de uma rede única que pudesse transmitir a mesma mensagem para todo o país, facilitando o controle da narrativa e a modernização técnica.

  • Parcerias Estratégicas: A Globo teve acesso a tecnologia e financiamento (como o polêmico acordo com o grupo americano Time-Life) que a colocaram décadas à frente de suas concorrentes em termos de qualidade de produção.


2. O Modelo de Redes e Afiliadas

Diferente de países onde as emissoras locais têm muita força, o Brasil adotou o modelo de "redes de televisão".

  • Uma "cabeça de rede" (geralmente em SP ou RJ) produz quase todo o conteúdo e o distribui para centenas de afiliadas locais.

  • Essas afiliadas pertencem, muitas vezes, a elites políticas regionais (famílias influentes em seus estados), o que cria uma simbiose: a rede nacional ganha capilaridade e a elite local ganha influência política e verbas publicitárias.


3. Propriedade Cruzada e Falta de Regulação

No Brasil, não existe uma lei que impeça a propriedade cruzada, que é quando um mesmo grupo é dono de rádio, TV, jornal impresso e portais de internet ao mesmo tempo.

  • Poder Multiplicado: Se você controla todos os meios, você domina o que a população consome de informação.

  • Vácuo Legal: Embora a Constituição de 1988 proíba monopólios e oligopólios na mídia, esse artigo nunca foi regulamentado pelo Congresso Nacional. Isso permitiu que os grandes grupos continuassem crescendo sem limites claros de mercado.


4. Barreira de Entrada Econômica

Manter uma emissora de TV aberta no Brasil é caríssimo.

  • A produção de conteúdo (como novelas e jornalismo de rede) exige investimentos de bilhões de reais.

  • O mercado publicitário brasileiro é extremamente concentrado: a maior parte da verba das grandes agências vai para a Globo, por causa de sua audiência massiva, o que deixa pouco espaço para que novas emissoras cresçam e compitam de igual para igual.


5. O Papel da Globo como "Padrão de Qualidade"

Ao longo de décadas, a Globo estabeleceu o chamado "Padrão Globo de Qualidade". Isso criou um hábito cultural no brasileiro. A emissora se tornou o principal palco para a teledramaturgia e o esporte, criando uma barreira psicológica: para o público e para os anunciantes, se algo não está na "grande mídia", parece não ter a mesma relevância.


Existem diversas formas de lidar com essa situação da grande mídia: pode-se ir para o enfrentamento e ataques e cortes de verbas, como Bolsonaro escolheu durante seu mandato (criando um hastag muito forte hoje, a #GloboLixo) ou ir para o acordo e compra, como Lula escolher junto com o PT no seus mandatos, com investimentos bilionários em campanhas.


A escolha não é fácil e óbvia porque uma matéria de 10 minuntos no Fantástico ou no Jornal Nacional é capaz de acabar com a reputação ou viabilidade plítica de qualquer candidato que não esteja dentro da máquina do bolsonarismo. A escolha pelo confronto gera muito desgaste e é uma guerra sangrenta com avanços tímidos. No entanto, a opção pelo acordo também é complicada porque a ideologia quase hegemônica nos orgãos de grande mídia é de esquerda, fazendo com que mudanças de linha editorial enfrente grande resistência e sabotagem. Sendo um acordo pouco proveitoso. Então o caminho é longo e existe muita sagacidade e paciência.


Vamos analisar como foio comportamento da mídia durante o governo Bolsonaro e como foi a questão a questão do investimento institucional do Planalto com elas.


GRANDE MÍDIA E GOVERNO BOLSONARO

Durante o governo de Jair Bolsonaro (2019-2022), a relação entre o Palácio do Planalto e as grandes emissoras foi marcada por uma clara divisão entre "aliadas" e "adversárias", o que impactou diretamente a distribuição de verbas publicitárias. O governo rompeu com a tradição de usar apenas o critério técnico de share (audiência) para distribuir recursos, priorizando critérios políticos sob a justificativa de "democratizar" a verba.


1. O Comportamento das Emissoras

  • TV Globo (A "Adversária"): Foi o principal alvo de ataques diretos do presidente e de seus apoiadores. Bolsonaro frequentemente ameaçava não renovar a concessão da emissora (o que acabou fazendo no fim do mandato, sob ritos técnicos). Editorialmente, a Globo manteve uma postura crítica e investigativa, especialmente durante a pandemia.

  • Record e SBT (As "Aliadas"): Ambas adotaram uma linha editorial mais amigável, frequentemente chamada de "chapa-branca".

    • A Record (de Edir Macedo) e o SBT (de Silvio Santos) tiveram acesso facilitado a entrevistas exclusivas.

    • No SBT, a relação era reforçada pelo fato de o então Ministro das Comunicações, Fábio Faria, ser genro de Silvio Santos.

  • Band e RedeTV!: * A RedeTV! manteve um apoio explícito, com apresentadores como Sikêra Jr. servindo de plataforma para as pautas do governo.

    • A Band teve uma postura mista: enquanto o jornalismo mantinha certa independência, programas de grande audiência (como o de Datena) davam amplo espaço para o presidente falar diretamente ao público.


2. A Questão do Investimento Público (Secom)

A distribuição de verbas da Secretaria de Comunicação (Secom) sofreu uma inversão histórica nos primeiros anos, mas foi forçada a mudar por decisões judiciais e pelo ano eleitoral.

A Inversão de Valores (2019-2020)

Pela primeira vez em décadas, a Globo (líder de audiência) recebeu menos verba do que suas concorrentes menores. Estudos baseados em dados da Secom (Secretaria de Comunicação) e do Portal da Transparência mostram que o governo Bolsonaro rompeu o critério técnico de audiência para punir e premiar emissoras.

  • Punição à Globo: Nos primeiros anos (2019-2020), a Globo teve sua fatia de publicidade reduzida drasticamente. Em 2019, enquanto a Record recebeu cerca de R$ 10,3 milhões, a Globo recebeu R$ 7,07 milhões, apesar de ter uma audiência muitas vezes maior.

  • A "Bonança" das Aliadas: A Record teve um aumento de faturamento publicitário com a Secom de 659% no início do governo. O SBT também passou a receber valores superiores aos da Globo em períodos específicos de 2019 e 2020.

  • Mídia Religiosa: Um levantamento da Agência Pública revelou que o governo gastou mais de R$ 30 milhões em rádios e TVs de pastores e líderes religiosos aliados (como a Rede Boas Novas e a TV Mundial), uma fatia desproporcional para o alcance dessas redes.


A Mudança no Final do Mandato (2021-2022)

Com a chegada do ano eleitoral e a pressão de órgãos de controle, a lógica mudou novamente:

  • Retorno da Globo: Em 2022, a Globo voltou a receber o maior montante individual (cerca de R$ 86 milhões), superando Record e SBT.

  • Estratégia Eleitoral: O governo precisava falar com a massa que não assistia às emissoras aliadas para tentar a reeleição. Além disso, o foco mudou de campanhas de "utilidade pública" (como vacinação) para campanhas "institucionais" (exaltando feitos do governo).


Tabela Comparativa de Investimento (Estimado - Secom)

Período

Liderança de Verba

Relação Política

2019 - 2020

Record e SBT

Recompensa por cobertura favorável.

2021

Disputa acirrada

Pressão do TCU por critérios técnicos.

2022

Globo

Necessidade de alcance para a campanha de reeleição.

Merchandising com Apresentadores

Além dos comerciais nos intervalos, o governo Bolsonaro investiu pesado em merchandising dentro dos programas. Apresentadores populares como Ratinho (SBT), Luciana Gimenez (RedeTV!) e nomes da Record receberam cachês para elogiar políticas governamentais (como a Reforma da Previdência) durante seus programas de auditório.


3. O Impacto na Opinião Pública: Polarização e Consumo

Pesquisas de opinião e estudos sobre comunicação (como os da USP e do INCT Instituto da Democracia) apontam três efeitos principais:

  • Abolição da "Verdade Comum": O público se dividiu pelo canal que assistia. Espectadores de emissoras "aliadas" (Record/SBT) tendiam a ver as ações do governo com mais otimismo e menos ceticismo, enquanto o público da Globo e da Band era exposto a uma cobertura mais crítica.

  • Descredibilização da Imprensa: Ataques frequentes do presidente em redes sociais (chamando a imprensa de "fake news" ou "lixo") criaram um efeito de "escudo" entre seus apoiadores. Estudos de redes sociais mostram que, para esse público, qualquer notícia negativa da grande mídia era automaticamente descartada como perseguição política.

  • Impacto na Vacinação: Estudos empíricos (como os publicados na Revista Latinoamericana de Opinión Pública) mostraram que a escolha da fonte de informação afetou o comportamento direto: pessoas que consumiam mídias alinhadas ao discurso presidencial demonstraram maior hesitação vacinal durante a pandemia de Covid-19.


4. O "Efeito Bolsonaro" nas Redes Sociais

O governo investiu na comunicação direta (WhatsApp e Telegram) para contornar a mídia tradicional. Isso criou o que pesquisadores chamam de "ecossistemas de desinformação":

  1. O governo lançava uma narrativa.

  2. Emissoras aliadas davam um tom positivo ou neutro àquela fala.

  3. Canais de internet e grupos de mensagem amplificavam essa versão, atacando as emissoras que faziam a checagem dos fatos.


Resumo do Cenário Final (2022)

Perto das eleições de 2022, o cenário financeiro mudou por dois motivos:

  1. Ordem do TCU: O Tribunal de Contas da União exigiu que a verba voltasse a seguir critérios técnicos de audiência, o que obrigou o governo a aumentar os repasses para a Globo.

  2. Necessidade Eleitoral: O governo percebeu que, para vencer, precisava falar com quem não era seu apoiador fiel, e a Globo era o único canal com alcance para isso.

Curiosidade: No primeiro ano do governo Lula (2023), essa lógica se inverteu novamente. A Globo voltou a concentrar cerca de 56% da verba de publicidade federal na TV, um aumento de mais de 60% em relação ao que recebia no último ano de Bolsonaro.

Vamos analisar um pouco se o que existe no Brasil é um oligopólio e quais os problemas que temos para quebrá-lo. E também como é a questão da mídia nos EUA.


Sim, o que temos no Brasil é tecnicamente classificado como um oligopólio (quando poucos grupos controlam um mercado). A diferença em relação aos Estados Unidos e a situação específica do rádio explicam muito sobre como o poder é distribuído no nosso país.


Aqui está o comparativo e a análise detalhada:


1. Brasil vs. EUA: Por que lá é "pulverizado"?

Na verdade, os EUA também sofrem com a concentração (hoje, cerca de 5 ou 6 gigantes como Disney, Comcast e Warner Bros. Discovery dominam o conteúdo nacional), mas a estrutura do mercado deles é muito mais pulverizada na ponta final por causa da regulação:


  • Proibição de Propriedade Cruzada: Durante décadas, a FCC (o órgão regulador americano) proibiu que uma mesma empresa fosse dona de um jornal, uma rádio e uma TV na mesma cidade. Isso forçou a existência de múltiplos donos locais. No Brasil, não há essa restrição: o mesmo grupo (como a RBS no Sul ou a Rede Bahia no Nordeste) pode ser dono do maior jornal, da maior rádio e da afiliada da Globo simultaneamente.

  • Independência das Afiliadas: Nos EUA, as estações locais têm muito mais autonomia. Elas compram conteúdo de redes (como NBC ou ABC), mas podem recusar programas e produzir muito conteúdo local próprio. No Brasil, o modelo é de "transmissão em rede": a afiliada local funciona quase como um repetidor da matriz de SP/RJ, com apenas algumas janelas de jornalismo local.

  • Regulação de Mercado (Antitruste): O governo americano historicamente agiu para "quebrar" monopólios de mídia (como o caso clássico da rede NBC nos anos 40). No Brasil, o artigo da Constituição que proíbe o monopólio na mídia nunca foi regulamentado pelo Congresso, deixando o mercado crescer sem amarras legais.


2. A Questão do Rádio: O "Coronelismo Eletrônico"

O rádio no Brasil é o setor onde o oligopólio se mistura com a política regional, criando um fenômeno que sociólogos chamam de Coronelismo Eletrônico.

  • Moeda de Troca Política: Historicamente, concessões de rádio foram dadas a políticos em troca de apoio no Congresso. Um estudo clássico apontou que, em determinado período, cerca de 10% dos parlamentares brasileiros eram sócios ou diretores de emissoras de rádio e TV.

  • Domínio Regional: Diferente da TV, que exige bilhões em investimento, o rádio é barato. Por isso, em vez de 5 grandes grupos nacionais, o rádio é dominado por oligarquias regionais. Cada estado ou grande cidade tem sua "família da mídia" que usa as ondas do rádio para consolidar seu poder político local.

  • Novas Regras (2024): Recentemente, o limite de concessões foi ampliado. Grupos empresariais agora podem ter até 20 outorgas de rádio (antes eram 6 FM e alguns limites AM). Isso tende a aumentar ainda mais a concentração, permitindo que grandes redes nacionais (como Jovem Pan ou BandNews) comprem pequenas emissoras locais e acabem com a diversidade regional.


Por que não muda?

O principal motivo para a manutenção desse oligopólio é o conflito de interesses:

  1. Quem deveria criar as leis para desconcentrar a mídia? O Congresso Nacional.

  2. Quem são os donos (diretos ou indiretos) de centenas de emissoras pelo Brasil? Os próprios congressistas ou seus familiares.

Isso cria um ciclo onde não há interesse político em aumentar a competição, pois a "pulverização" do mercado significaria a perda de poder direto desses grupos sobre o que o eleitor ouve e assiste.


Vamos ver um pouco quas grupos e famílias controlam o rádio e a TV como elites locais espalhados pelo país.


Para entender o Brasil, é preciso entender que a mídia não é apenas uma concessão pública, mas um patrimônio hereditário de clãs políticos. Esse fenômeno, chamado de Coronelismo Eletrônico, faz com que o dono da principal rádio e da afiliada da Globo (ou Record/SBT) seja, frequentemente, o próprio governador, senador ou seus parentes próximos.


Abaixo, os exemplos mais emblemáticos de como esse domínio funciona em alguns estados:


1. Bahia: A Família Magalhães (Rede Bahia)

Um dos casos mais clássicos de poder midiático e político entrelaçados.

  • A Família: Liderada historicamente por Antônio Carlos Magalhães (ACM) e hoje por seus herdeiros (como ACM Neto).

  • O Domínio: São donos da Rede Bahia, que controla a afiliada da TV Globo em Salvador e em várias cidades do interior, além do jornal Correio e de diversas rádios (como a GFM).

  • O Poder: Por décadas, foi quase impossível fazer política na Bahia sem o apoio ou a neutralidade da Rede Bahia.


2. Alagoas: Clã Collor e Clã Calheiros

Em Alagoas, a disputa política se reflete diretamente no dial do rádio e na tela da TV.

  • Família Collor: O ex-presidente e ex-senador Fernando Collor é o principal acionista da Organização Arnon de Mello, que controla a TV Gazeta (afiliada da Globo) e várias rádios.

  • Família Calheiros: Para rivalizar, a família do senador Renan Calheiros também possui influência e controle sobre outras redes de rádio e TV locais.

  • Consequência: As emissoras costumam ser usadas como armas de ataque ou defesa durante os períodos eleitorais.


3. Rio Grande do Sul: Grupo RBS (Família Sirotsky)

Diferente do Nordeste, o domínio aqui é mais empresarial do que diretamente partidário, mas ainda assim um oligopólio fortíssimo.

  • O Domínio: O Grupo RBS é um dos maiores conglomerados de mídia do país. Eles controlam a afiliada da Globo em todo o RS, o jornal Zero Hora, a rádio Gaúcha e a rádio Atlântida.

  • Impacto: A RBS consegue pautar a opinião pública gaúcha de forma quase absoluta, decidindo o que é notícia e qual o tom do debate político no estado.


4. Maranhão: Família Sarney (Sistema Mirante)

  • A Família: O ex-presidente José Sarney e seus filhos (Roseana, Sarney Filho).

  • O Domínio: Controlam o Sistema Mirante, que detém a afiliada da Globo, além de jornais e rádios.

  • O Poder: Durante décadas, a TV Mirante foi o principal pilar de sustentação do grupo político de Sarney no estado, servindo para promover aliados e isolar opositores.


Tabela: O Mapa do Poder Regional

Estado

Grupo Dominante

Família/Político

Afiliação de TV

Bahia

Rede Bahia

Magalhães

Globo

Alagoas

OAM

Fernando Collor

Globo

Maranhão

Sistema Mirante

Sarney

Globo

Ceará

Sistema Verdes Mares

Queiroz/Tasso Jereissati*

Globo

Paraná

Grupo Massa

Ratinho (Gov. Ratinho Jr)

SBT

Pernambuco

Grupo OPAN/EQM

Família Eduardo Queiroz Monteiro

Rádios/Jornais

*Nota: O Grupo Queiroz tem laços históricos e societários com a elite política cearense.


Por que isso é um problema para a democracia?

  1. Barreira de Entrada: Um político novo, sem dinheiro e sem rádio, tem dificuldade imensa de se tornar conhecido em cidades do interior, onde o rádio ainda é a principal fonte de informação.

  2. Silenciamento: Críticas a esses "coronéis" raramente saem em suas próprias emissoras. Se o dono da TV é o pai do governador, as falhas do governo dificilmente serão manchete.

  3. Verba Pública: Esses políticos-empresários muitas vezes direcionam verbas de publicidade dos seus governos ou prefeituras para as suas próprias emissoras (ou de aliados), criando um ciclo onde o dinheiro público sustenta o poder privado deles.


Você pode observar que um padrão que repete-se é que as elites locais são os principais aliados dos grandes grupos nacionais. Eles escolheram serem parceiros em nível local dos grandes grupos. Isso já dar um direcionamento da pricipal tática a ser adota, como, ao invés de desafiar à nivel nacional e tentar quebrar o monopólio federal, ser um parceiro local, onde a resistência ideológica pode ser menor na emissora, já que pode refletir ais a cultura local que pode ser até conservadora.


Vamos ver como, mesmo proibido pela Constituição Brasileira que parlamentares sejam donos de emissoras, eles usam "laranjas" ou nomes de familiares para burlar a lei usando brechas.


Essa brecha é um dos segredos mais bem guardados da política brasileira. Tecnicamente, a Constituição Federal (Artigo 54) proíbe que deputados e senadores "firmem ou mantenham contrato com empresa de concessionária de serviço público". Como rádio e TV são concessões públicas, eles não poderiam ser donos.

No entanto, o sistema sobrevive através de três manobras principais:


1. O Uso de "Testas de Ferro" (Laranjas)

A forma mais comum é registrar as ações da empresa em nome de esposas, filhos, irmãos ou primos.

  • Juridicamente, o parlamentar não é o dono "no papel", mas na prática, ele decide a linha editorial e recebe os lucros.

  • O Supremo Tribunal Federal (STF) já foi provocado várias vezes sobre isso, mas as decisões costumam ser lentas ou focadas apenas em casos específicos, sem uma proibição geral que atinja todos os familiares.


2. A Distinção entre "Sócio" e "Administrador"

Muitos advogados de políticos argumentam que a Constituição proíbe apenas que o parlamentar administre a empresa (assine documentos, contrate pessoas), mas não que ele seja acionista (apenas dono do capital).

  • Isso cria uma zona cinzenta: o político diz que é apenas um "investidor" na rádio da família, embora todos saibam que a rádio serve aos seus interesses eleitorais.


3. A Inércia do Congresso e do Judiciário

Para que um político perca o mandato por ser dono de emissora, seus próprios colegas no Congresso teriam que votar pela cassação, ou o Ministério Público teria que mover uma ação que passasse por todas as instâncias.

  • Como muitos juízes e promotores também dependem de boas relações com a mídia local, e como muitos parlamentares de todos os partidos possuem emissoras, existe um acordo tácito de não agressão. Ninguém mexe no privilégio do outro.


O Impacto no Ecossistema de Notícias

Essa estrutura cria um "filtro" na informação que chega ao cidadão, especialmente no interior do Brasil:

  • Invisibilidade de Opositores: Se um sindicato ou movimento social faz um protesto contra um deputado que é dono da rádio local, o protesto simplesmente "não acontece" na cobertura jornalística.

  • Promoção Pessoal: O rádio é usado para divulgar ações do mandato do político como se fossem notícias isentas, transformando a concessão pública em um canal de propaganda 24 horas.

  • Pressão em Época de Eleição: Durante as campanhas, o tempo de antena e o tom das entrevistas são calibrados para favorecer o clã proprietário.


A Mudança Digital: O Fim do Coronelismo?

Com a chegada da internet e das redes sociais, esse domínio está sendo desafiado. Um político hoje pode falar diretamente pelo Instagram ou WhatsApp sem precisar de uma rádio.

No entanto, o faturamento ainda é o diferencial. As verbas publicitárias do governo federal e estadual continuam indo majoritariamente para essas emissoras físicas, o que mantém o poder financeiro desses grupos vivo, mesmo com a queda da audiência tradicional.


Nessa configuração ficamos numa situação muito complicada para quebrar esse monopólio, já que deverá contar com a vontade política dos principais beneficiados por esse formato. É um sistema que retroalimenta-se e fortalece seu poder e privilégio. Os parlamentares teriam que vota contra si mesmo, abrindo mão do poder e da influencia que têm em suas bases de voto - algo quase delirante. Assim, acredito que teremos que aprender as regras do jogo e jogar com elas.


Vamos entender como as tentativas de "Ley de Medios" (como a que ocorreu na Argentina) tentaram combater isso e por que uma proposta similar nunca avançou no Brasil.


A tentativa de regulamentar a mídia no Brasil é um dos temas mais polêmicos da política nacional, frequentemente rotulado pelos grupos de comunicação como "censura" e pelos defensores como "democratização".


Para entender por que isso nunca avançou aqui, enquanto países vizinhos como a Argentina tentaram caminhos drásticos, precisamos olhar para a Ley de Medios e o contexto brasileiro.


1. O Exemplo Argentino (Ley de Medios - 2009)

O governo de Cristina Kirchner aprovou uma lei que atacava diretamente o Grupo Clarín (o equivalente à Globo na Argentina). Os principais pontos eram:

  • Desconcentração Forçada: Estabelecia um limite máximo de licenças que um grupo poderia ter. O Clarín foi obrigado a vender dezenas de emissoras.

  • Divisão do Espectro: Dividia as frequências de rádio e TV em três partes iguais: 1/3 para o Estado, 1/3 para empresas privadas e 1/3 para organizações sem fins lucrativos (ONGs, sindicatos, universidades).

  • Resultado: A lei gerou uma guerra jurídica de anos. Quando Mauricio Macri assumiu a presidência, ele revogou os pontos principais por decreto, mostrando como a regulação da mídia é sensível a mudanças de governo.


2. Por que no Brasil a proposta nunca saiu do papel?

No Brasil, o governo Lula (em seus primeiros mandatos) e movimentos sociais chegaram a esboçar um "Marco Regulatório da Comunicação", mas ele enfrentou barreiras intransponíveis:

  • O Rótulo da Censura: As grandes emissoras usaram seu enorme poder de alcance para dizer à população que qualquer regulação econômica era, na verdade, uma tentativa de controlar o conteúdo e censurar o jornalismo. Isso gerou uma rejeição popular imediata.

  • O "Poder de Veto" do Congresso: Como vimos, muitos deputados e senadores são donos de emissoras. Eles nunca votariam uma lei que os obrigasse a vender suas próprias empresas ou que diminuísse seu poder regional.

  • O STF e a Liberdade de Expressão: O Supremo Tribunal Federal brasileiro tem uma tradição de interpretação muito ampla da liberdade de imprensa, tendendo a derrubar leis que possam, de alguma forma, constranger a atividade dos grandes veículos.


3. A Diferença entre Regulação de Conteúdo e Econômica

É aqui que mora a maior confusão no debate público brasileiro:

  • Regulação de Conteúdo (Censura): Seria o Estado dizendo o que pode ou não ser dito. Isso é proibido pela Constituição.

  • Regulação Econômica (Antitruste): Seria o Estado impedindo que uma única família fosse dona de todos os meios de comunicação de uma cidade. É isso que existe nos EUA e na Europa, mas que no Brasil é tratado como se fosse censura.


4. O Cenário Atual: O PL das Fake News

Hoje, o debate mudou. A preocupação não é mais apenas com o oligopólio da TV Globo ou das famílias regionais, mas com o oligopólio das Big Techs (Google, Meta, X).

O PL 2630 (PL das Fake News) é a tentativa atual de regulação. Curiosamente, desta vez:

  1. As TVs apoiam parte da regulação: Elas querem que as redes sociais sejam responsabilizadas e que paguem pelo conteúdo jornalístico que circula nelas.

  2. As Big Techs resistem: Elas usam a mesma estratégia que as TVs usavam no passado, alegando que a regulação vai "acabar com a liberdade na internet".


O que acontece agora?

O Brasil continua com uma das legislações de mídia mais defasadas do mundo (o Código Brasileiro de Telecomunicações é de 1962). Enquanto isso, o poder apenas migra de mãos: do "Coronelismo Eletrônico" das rádios para o "Algoritmo" das plataformas digitais, mantendo a informação concentrada em poucos players.


No quesito de controle da mídia, temos o mesmo problema da esquerda que também é rival desses oligopólios. A mídia no Brasil não é de esquerda como parece, mas é de centro-esquerda ou social-democrata. Ela é controlada pelo Centrão. Sendo assim, as iniciativas mais antigas para tentar combater esse poder é da esquerda (ou extrema-esquerda). Nós poderemos estar caindo numa armadilha em aumentar a pressão contra esse sistema midiático, já que o maior beneficiado seria a esquerda, pois ela é o grupo mais organizado, financiado e institucionalizado preparado para ocupar esse vácuo deixado pela queda da grande mídia. Sem fala que regulações desse tipo interessam ao Centrão e a esquerda petista para acabar com o bolsonarismo, já que é o único movimento que desafia de fato o sistema. Meio que o centrão domesticou a esquerda petista, que esse domesticou a extrema-esquerda. Esse é um dilema que enfrentamos.


Vamos fazer uma análise estratégica sofisticada que toca no coração do dilema político atual: a disputa pela infraestrutura da informação.


Descrevi o que muitos analistas chamam de "Ecossistema de Preservação do Sistema". A grande mídia brasileira (social-democrata/Centrão) e a esquerda institucionalizada (PT) possuem uma simbiose histórica no que diz respeito às instituições. Para ambos, a "ordem" — seja ela o monopólio da fala ou o rito parlamentar — é o que garante sua sobrevivência.


O Bolsonarismo, ao se apresentar como um movimento antissistema que opera "por fora" dessas instituições, encontrou nas redes sociais o seu "latifúndio digital". Se esse território for cercado (via regulação e censura), o dilema é real: como sobreviver sem as redes e sem os canais de TV?


Aqui estão as alternativas estratégicas que movimentos de direita e antissistema têm discutido e implementado para fugir dessa "armadilha":


1. A Estratégia da "Mídia Paralela" Verticalizada

Se o vácuo da grande mídia for ocupado pela esquerda via regulação, a alternativa é a criação de um ecossistema próprio que não dependa de concessões públicas (TV/Rádio) nem de algoritmos de terceiros (Big Techs).

  • Plataformas de Assinatura: Grupos como Brasil Paralelo e outros portais de mídia conservadora já operam nesse modelo. Ao tirar o usuário do YouTube/Instagram e levá-lo para um aplicativo próprio com login e assinatura, o movimento se torna imune ao "shadowbanning" e à desmonetização.

  • O Desafio: A barreira de saída (pagar por conteúdo) é maior do que o consumo gratuito nas redes sociais, o que dificulta a expansão para a "massa".


2. Descentralização via Protocolos (Web3 e Nostr)

Diante da ameaça de censura centralizada (STF/TSE/Governo), a alternativa técnica é a migração para redes descentralizadas.

  • Protocolos abertos: O uso de protocolos como o Nostr (apoiado por figuras como Jack Dorsey) ou redes como o Rumble (que tem uma política de moderação muito mais frouxa que o YouTube).

  • Imunidade Jurídica: Redes que não possuem sede no Brasil ou que são descentralizadas (onde não há um "servidor central" para ser desligado) tornam as ordens judiciais de bloqueio muito mais difíceis de serem executadas tecnicamente.


3. O Retorno ao "Coronelismo Digital" Local

Se o Centrão e a Esquerda tentam domesticar o topo da pirâmide (Brasília e as sedes das Big Techs), a alternativa é a ocupação das bases, como falei acima na alternativa de jogar conforme as regras vigentes.

  • Canais de Transmissão Direta: O uso intensivo de listas de transmissão em WhatsApp e canais de Telegram. Embora o TSE tente monitorar, a escala é privada e capilarizada.

  • Ocupação do Rádio Local: Em vez de combater o oligopólio nacional, muitos grupos de direita têm investido na compra de horários ou na aquisição de pequenas rádios no interior. O rádio ainda é o meio que chega onde a internet falha, e a regulação sobre o que é dito em uma rádio de pequeno porte no interior é muito mais difícil de fiscalizar do que um post viral.


4. A Aliança com o Capital Internacional

O Bolsonarismo busca frequentemente o apoio de atores internacionais que defendem o "free speech" absolutista. O caso da disputa entre Elon Musk (X) e o Judiciário brasileiro é o exemplo perfeito.

  • A Alternativa: Transformar a questão interna brasileira em uma pauta global de direitos humanos e liberdade de expressão, forçando as instituições brasileiras a recuarem sob pressão diplomática ou econômica externa. Mesmo que sejam alianças frágeis e determinadas por interesses que não controlamos. Essa alternativa é paleativa e reativa.


O Dilema do Vácuo

Se a mídia tradicional cair e as redes forem censuradas, a direita corre o risco de ficar sem "corpo".

A alternativa real para o Bolsonarismo parece passar por dois caminhos simultâneos:

  1. Tecnológico: Fugir das plataformas "Big Tech" que colaboram com governos.

  2. Cultural: Criar suas próprias instituições (escolas, institutos, clubes de tiro, igrejas) que sirvam como centros de difusão de informação presencial, onde a censura digital não consegue chegar.


COMO GANHAR ESPAÇO JOGANDO O JOGO DA MÍDIA ATUAL

Para ganhar espaço especificamente na mídia local (rádios e afiliadas de TV) jogando dentro das regras, o desafio é sair do campo da "opinião" e entrar no campo do "negócio" e da "concessão".

Diferente das redes sociais, onde o algoritmo entrega o que é polêmico, a mídia local é um ambiente de concessão pública, o que impõe barreiras de entrada muito mais altas.

Aqui estão os maiores desafios para o movimento conservador/bolsonarista ocupar esses espaços:


1. O Custo das "Horas Alugadas"

Muitas rádios e TVs locais sobrevivem vendendo horários para igrejas e produtores independentes.

  • O Desafio: O preço de uma hora diária em uma rádio de médio porte é alto. Para ocupar esse espaço, o movimento precisa de financiamento constante.

  • O Risco: Depender de doações de empresários locais pode criar uma "coleira" política. Se o empresário tiver contratos com a prefeitura (geralmente do Centrão), ele pode puxar o tapete do programa se o tom ficar crítico demais.


2. A Rigidez do "Direito de Resposta" e a Lei Eleitoral

Na internet, você pode fazer uma acusação e o impacto é imediato. Na mídia tradicional, as regras da ANATEL e do Código Brasileiro de Telecomunicações são severas.

  • O Desafio: Programas de rádio e TV são alvos fáceis para processos de direito de resposta. Se um comunicador bolsonarista ataca um político local na rádio, o juiz pode dar o tempo de antena para o oponente se defender, o que acaba fortalecendo o adversário.

  • Fiscalização: A Justiça Eleitoral monitora a "proporcionalidade". Se uma rádio local der espaço apenas para um lado, ela pode sofrer multas pesadíssimas ou até a suspensão da concessão.


3. A "Barreira Técnica" do Padrão de Produção

O público da mídia tradicional, mesmo no interior, está acostumado com um certo nível de qualidade estética (o legado do "Padrão Globo").

  • O Desafio: Não basta ter um celular e uma boa oratória. Para ocupar a TV local, é preciso investir em estúdio, edição e som. Um programa com aparência "amadora" ou "caseira" pode afastar os anunciantes comerciais que não querem ver sua marca associada a algo que pareça instável ou agressivo.


4. O Boicote das Agências de Publicidade

As grandes agências de publicidade, que controlam as verbas das prefeituras e das grandes empresas locais, costumam evitar programas de "extrema" opinião.

  • O Desafio: Para a mídia local ser sustentável, ela precisa de anúncios. Se o programa for marcado como "polêmico demais", as agências retiram o patrocínio por medo de cancelamento ou por pressão política.

  • A Alternativa: Criar uma rede de anunciantes ideológicos (comércio local, produtores rurais) que sustentem a mídia independentemente das agências tradicionais.


Estratégias de Ocupação: Onde é mais fácil entrar?

Meio

Facilidade de Entrada

Impacto Político

Principal Barreira

Rádio FM/AM

Alta

Muito Alto

Fiscalização do Ministério Público

TV Comunitária

Média

Baixo

Baixa audiência/alcance

Portais de Notícias

Muito Alta

Médio

Dependência do Google/Facebook para tráfego

Afiliadas de TV

Quase Nula

Altíssimo

São controladas pelas famílias que citamos antes


O maior desafio estratégico: A Linguagem

A linguagem das redes sociais (agressiva, rápida, cheia de gírias de nicho) muitas vezes não funciona no rádio local. O ouvinte de rádio no interior é, muitas vezes, o idoso, o trabalhador rural ou o motorista.

  • O Desafio: Traduzir a pauta antissistema para uma linguagem que faça sentido para quem está preocupado com o preço do diesel e o policiamento no bairro. Se o movimento não conseguir fazer essa tradução cultural, ele ocupará o espaço, mas falará apenas para quem já está convertido.


Veja qual seria o formato ideal de um veículo de mídia local que pudesse desafiar os "coronéis" sem ser fechado pela justiça na primeira semana. Um programa de variedades, um jornalismo policial ou algo focado em agronegócio?


Para criar um veículo de mídia local que sobreviva ao "sistema" e ao "tapetão" jurídico, a estratégia precisa ser menos confronto direto e mais ocupação cultural. O segredo está em se tornar indispensável para a comunidade antes de se tornar uma ameaça para o político local.

Aqui estão os três pilares para vencer esse desafio:


1. O Formato "Cavalo de Troia": Utilidade Pública e Agro

A melhor forma de entrar no rádio ou na TV local sem ser barrado é através do Jornalismo de Serviços ou do Agro.

  • Por que o Agro? É o setor que detém o PIB real no interior. Um programa focado em cotações, tecnologia no campo e defesa da propriedade rural atrai o financiamento dos produtores (anunciantes ideológicos) e é difícil de ser rotulado como "discurso de ódio".

  • Por que o Serviço? Se o seu programa ajuda o cidadão a resolver o problema da falta de água ou denuncia o buraco na rua, a população se torna seu escudo. Se o prefeito tentar fechar o programa, ele estará atacando quem "ajuda o povo".


2. Blindagem Jurídica: O Modelo de "Comentarista Independente"

Em vez de comprar uma emissora inteira (o que atrai os órgãos de controle), a tática mais eficiente é ocupar espaços de comentários em veículos já estabelecidos.

  • Contrato de Aluguel de Horário: É juridicamente mais seguro. Você é um "cliente" da rádio. Se o conteúdo der problema, a responsabilidade é dividida.

  • A "Rede de Retransmissão": Em vez de uma rádio grande, você faz parcerias com 10 rádios comunitárias ou pequenas FMs. É o que chamamos de capilaridade. Se uma for processada e fechada, as outras nove continuam no ar.


3. O Desafio da Receita: O "Marketplace" Ideológico

O maior gargalo é o financeiro. Para não depender da verba da Prefeitura (que é usada para domesticar a mídia), o veículo precisa de um ecossistema de anúncios próprio.

  • Anunciantes da "Bolha": Focar em empresas locais que compartilham dos valores (lojas de armas, cooperativas agrícolas, escolas particulares).

  • Clube de Membros Local: Adaptar o modelo do YouTube para o rádio. "Seja um sócio da rádio que defende a nossa cidade". Isso cria uma barreira contra o boicote de agências de publicidade do Centrão.


O Grande Desafio: O "Fator Moderador"

Para jogar o jogo das concessões (rádio/TV), o movimento precisa aprender a "apitar por dentro".

  • O Desafio: No rádio, você não pode usar o vocabulário das redes sociais. Se você usar termos muito agressivos, a ANATEL retira a outorga por "uso indevido da concessão".

  • A Solução: Aprender a fazer a crítica política através da ironia, da pergunta retórica e da exposição de fatos (dados orçamentários, votações), em vez do ataque pessoal direto. Isso torna o programa juridicamente inatacável.


Resumo da Alternativa

A alternativa real para o bolsonarismo na mídia local não é criar uma "Globo de Direita", mas sim uma rede de centenas de pequenas vozes coordenadas. Enquanto o sistema foca em derrubar grandes perfis no X (Twitter), ele tem dificuldade em fiscalizar 5.000 rádios de interior que estão falando a mesma língua.

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MILITÂNCIA ORGANIZDA


Um outro fator estratégico para o sucesso de um movimento político que ambicione resultados táticos da luta ideológica é a militância organizada. Segundo a definição do Professor Olavo de Carvalho, a militância não é o conjunto difuso de apoiadores de uma pessoa ou organização ideológica, mas um grupo de pessoas organizadas, disciplinadas e comprometidas com a ação prática da política. São pessoas que reunem-se recorrentemente e fazem grupos de trabalho para planejar as ações do movimento nas mais diversas áreas da operação, como mídia, economia, inteligência e geopólitica. Diferentemente da massa que é difusa, desorganizada, passiva e a espera da condução tática que será feito, sim, pelos militantes. Esses agentes podem ser voluntários ou pagos, ou fazem doações para a causa.


Desde o renascimento da direita com as Jornadas de Julho em 2014 e 2015 e a gênese do movimento Bolsonarista em 2016-2017 não teve ainda organizada uma militância profissional. Essa ausência deixou o movimento muito exposto ao contra-ataque coordenado do inimigo, como no caso da fraude do ínquerito do Golpe, dos processos contra as "fakes news" conduzido por Morais e a prisão arbitrária de Jair Bolsonaro. Nesse cenário a militância poderia trabalhar com táticas de controle da narrativa na internet, pressão diplomática com aliados internacionais e organismos multilaterais, drenagem de recursos para financiamento, pressão pública com protestos duros e agressivos ou medidas drásticas, como paralizações dos caminhoneiros ou greves. Isso tudo feito a partir de um grupo central e distribuido de forma coordenada pelo país.


Vamos analisar um ponto nevrálgico da ciência política contemporânea e da história recente do Brasil: a transição entre o entusiasmo orgânico e a estrutura institucional.


1. A Estrutura da Militância Organizada

Para que um movimento deixe de ser apenas uma "onda" e se torne uma força de resistência e avanço, ele precisa de uma divisão funcional clara. Segundo essa visão, a militância profissional atua em frentes específicas:

  • Inteligência e Estratégia: Monitoramento de adversários e antecipação de cenários jurídicos ou políticos.

  • Comunicação e Narrativa: Não apenas reagir, mas pautar o debate público e controlar danos em tempo real.

  • Logística e Mobilização: Capacidade de converter engajamento digital em presença física coordenada (greves, paralisações, manifestações localizadas, ocupação de audiências e votação).

  • Sustentabilidade Financeira: Criação de fluxos de recursos independentes de plataformas que podem sofrer censura ou bloqueios.


2. Massa vs. Militância: A Diferença de Potencial

A principal vulnerabilidade no movimento brasileiro (2014-2022) foi a dependência da espontaneidade.

Característica

Massa de Manobra / Apoiadores

Militância Organizada

Ação

Reativa e difusa.

Proativa e coordenada.

Comando

Espera uma liderança carismática.

Opera sob diretrizes táticas pré-definidas.

Resiliência

Desmobiliza sob pressão ou medo.

Mantém a operação em células mesmo sob ataque.

Objetivo

Expressar opinião/sentimento.

Obter resultados políticos práticos.

3. Consequências da Ausência de Profissionalismo

A falta de uma "camada intermediária" — militantes treinados que conectam a liderança à massa — deixou o flanco aberto para o que você descreveu como o contra-ataque coordenado das instituições.

Sem uma rede de suporte jurídico, internacional e financeiro, o movimento torna-se um "gigante de pés de barro": tem milhões de vozes, mas nenhuma estrutura para protegê-las quando as regras do jogo mudam ou quando o "inimigo" (no termo olaviano) utiliza o peso do Estado para desarticular a liderança.


4. O Cenário Tático Proposto

As medidas citadas (pressão diplomática, controle de narrativa e paralisações) exigem um nível de disciplina interna que raramente se vê em movimentos populistas. Para que uma paralisação de caminhoneiros seja estratégica e não apenas um "surto", ela precisa de um objetivo político claro e uma saída negociada — algo que só uma militância organizada consegue gerir sem se autodestruir.


Para aprofundarmos essa análise, vamos discutir como a ausência de uma "elite intelectual" (outro ponto frequente na obra de Olavo) contribuiu para essa desorganização da militância na prática.


A tese de Olavo de Carvalho sobre a "Elite Intelectual" é o alicerce que faltou para que a militância, que discutimos anteriormente, não fosse apenas barulhenta, mas institucionalmente sólida. O que já era previsto e profetizado pelo professor no auge daqueles movimento quando ele saibamente chamou-o de "ejaculação precoce". Ele não via no movimento a estrutura necessária para uma vitória definitiva e não um "vôo de galinha', como foi o que aconteceu.


Para o Prof. Olavo, a política é a "camada final" de um processo que começa na cultura e na alta inteligência. Sem essa base, o movimento fica sem "gramática" para se expressar e sem "anticorpos" contra ataques narrativos. Isso pode levar o movimento a discutir nos termos postulados pelo inimigo, já que a palavra/conceito limita o horizonte do imaginário do objeto definido. A exemplo é a discussão legal de permtir ou não o "casamento gay". A discussão já inicia perdida porque limita a discussão dentro de uma premissa falsa da existência da possibilidade desse casamento ocorrer, já que casar pressupõe acasalar visando procriar, o que é impossível nesse caso. O conceito adequado seria união homossexual, que nesse caso não tem nenhum problema... e acabou a discussão.


Aqui estão os pontos fundamentais de como essa ausência gerou a desorganização que vemos hoje:

1. A Substituição do Intelectual pelo "Influencer"

Um dos maiores problemas estratégicos foi a confusão entre prestígio intelectual e popularidade digital.

  • O Intelectual: Analisa o processo histórico, prevê movimentos do adversário e cria conceitos que resistem ao tempo.

  • O Influencer: Vive do algoritmo, da polêmica do dia e do engajamento imediato.

  • Resultado: O movimento brasileiro formou grandes comunicadores, mas poucos estrategistas. Quando o "X" (Twitter) ou outras redes sofrem intervenções judiciais, a militância fica órfã, pois sua base era o algoritmo e não uma estrutura de pensamento independente.


2. A Falta de "Soberania Mental"

Sem uma elite intelectual, o movimento não consegue definir seus próprios termos. Ele passa a usar a linguagem do adversário.

  • Exemplo: Ao tentar se defender de acusações de "atos antidemocráticos" ou "fake news", o movimento muitas vezes usou justificativas puramente emocionais ou reativas, em vez de possuir uma doutrina jurídica e filosófica robusta que pudesse constranger intelectualmente o sistema judiciário.

  • A consequência: O adversário pauta o debate, define o que é "verdade" e o movimento apenas reage, sempre na defensiva.


Aqui a própria direita refere-se ao que aconteceu em 08 de janeiro de 2022 como "O 8 de Janeiro" ou os "Atos do 08 de Janeiro". A própria linguagem já garante sua derrota porque ele significa a abreviação da definição incutida nesse conceito que seria "Atos Anti-democráticos do 08 de Janeiro". Esse conceito limita a discussão em torno da resistência birrenta a um resultado eleitoral natural da democraia. Para evitar isso, usamos o conceito de a "Revolta do 8 de Janeiro". A palavra revolta pressupõe um motivo revoltante prévio. Nesse caso, deixaria de ser uma ação anti-democrática e passaria a ser uma uma reação democrática de revolta e insatisfação. Assim, o escopo de discussão serão os motivos da revolta, que foram a manipulação do processo elitoral para a vitória de Lula em 2022, como censura midiática, controle de ofício do TSE e proibições de campanha televisiva impedindo de chamar Lula de ladrão, amigo de Maduro, de abortista ou dizer que ele era apoiado por satanista.


3. Ocupação de Espaços vs. Manifestação de Rua

Olavo criticava a ideia de que "levar milhões às ruas" resolveria o problema por si só. Ele defendia que a ocupação de espaços (universidades, redações, tribunais, diplomacia) era mais importante.

  • A militância sem elite intelectual é capaz de lotar a Avenida Paulista, mas é incapaz de ocupar uma cadeira no STF ou influenciar a linha editorial de um grande jornal.

  • Sem intelectuais infiltrados nas instituições, a "massa" fica gritando do lado de fora, enquanto as decisões reais são tomadas a portas fechadas por quem domina a narrativa técnica.


4. A Vulnerabilidade ao "Estelionato Eleitoral"

Sem uma elite que vigie e cobre os políticos sob uma base ideológica clara, a militância torna-se refém de promessas.

  • Uma elite intelectual serve como o tribunal moral de um movimento. Ela diz quando um político da sua própria ala está traindo os princípios.

  • Sem isso, o movimento brasileiro se tornou personalista: se o líder diz que algo é bom, a massa aceita, mesmo que isso destrua a estratégia de longo prazo.

Nota Estratégica: A militância organizada (que discutimos antes) é o corpo do movimento; a elite intelectual é a cabeça. Um corpo sem cabeça age por reflexo (emoção), mas não possui coordenação motora para vencer uma luta profissional.

Onde o movimento falhou na prática?

Se houvesse essa elite, o movimento teria criado, entre 2018 e 2022:

  1. Escolas de formação política para novos juízes e diplomatas.

  2. Think-tanks de economia e segurança que pautassem o Congresso.

  3. Redes de proteção jurídica internacional antes das crises estourarem.



COMO UMA MILITÂNCIA ORGANIZADA PODERIA TER DADO SUSTENTAÇÃO AO GOVERNO BOLSONARO

Para que uma militância organizada — nos moldes propostos por Olavo de Carvalho — pudesse ter dado sustentação real ao governo Bolsonaro e mitigado o avanço das instituições que o movimento considera adversárias, ela teria que ter operado como uma estrutura profissional paralela ao Estado, e não apenas como um grupo de apoio digital.


1. Blindagem Jurídica e Diplomática (Guerra de Posição)

A maior fraqueza do movimento foi a falta de uma "legião de juristas" e articuladores internacionais. Uma militância profissional teria:


  • Ações Coordenadas: Em vez de defesas individuais, milhares de advogados militantes protocolariam ações simultâneas em todas as comarcas do país contra decisões consideradas arbitrárias, sobrecarregando o sistema e criando um "custo político" para o Judiciário.


Veja como age nesse campo pela esquerda o grupo jurídico "Prerrogativas"

O "Prerrô" não é uma massa de rua; é uma rede de influência institucional. Ele se estrutura de forma a garantir que o pensamento do grupo esteja presente onde as decisões são tomadas.

  • Ocupação de Espaços: Em 2025, o grupo consolidou um poder inédito no governo Lula, com dezenas de membros ocupando cargos estratégicos (AGU, Ministério da Fazenda, Ministério da Justiça e Direitos Humanos).

  • Controle da Narrativa Jurídica: Eles atuam como um "think-tank" que produz pareceres e artigos na grande mídia (Folha, Estadão) para validar juridicamente as ações do governo e do STF. Quando surge um tema polêmico, o grupo coordena uma resposta uníssona através de grupos de WhatsApp, pautando o debate público antes que a oposição consiga reagir.

  • O "Vigiar e Punir": O grupo coordena ações para isolar opositores juridicamente, como o movimento "Sem Anistia", que pressiona por punições rigorosas aos envolvidos no 8 de janeiro.


  • Lobby Internacional Permanente: Uma célula de inteligência atuando em organismos como a OEA, ONU e parlamentos estrangeiros (EUA e UE) para denunciar perseguições políticas em tempo real, gerando sanções ou constrangimentos diplomáticos antes que as prisões ocorressem.

Vamos ver como a primeira tentativa de fazer algo nesse sentido feita pela diretia com Eduardo Bolsonaro e Paulo Figuereido nos EUA


Em 2025, vimos o ápice dessa tentativa de "militância internacional", mas com resultados que mostram a diferença entre barulho político e poder institucional.

Evento

Ocorrido em 2025

Resultado Tático

Lei Magnitsky

Em julho de 2025, o governo Trump aplicou sanções a Alexandre de Moraes após intenso lobby de Eduardo Bolsonaro nos EUA.

Temporário. As sanções foram suspensas/retiradas em dezembro de 2025 após negociações diplomáticas entre os governos Lula e Trump.

Tarifas e Pressão

Trump usou a ameaça de tarifas contra o Brasil citando a "perseguição a Bolsonaro".

Impacto Econômico. Gerou pânico em empresários brasileiros, mas não alterou as sentenças do STF.

Reação Jurídica

O lobby internacional foi usado pela PGR como prova em processos internos.

Contraponto. Eduardo Bolsonaro tornou-se réu no STF por "coação no curso do processo" devido a esse mesmo lobby.

A Falha Estratégica

A ação de Eduardo Bolsonaro e Paulo Figueiredo assemelha-se à "militância organizada" no sentido de coordenar aliados externos, mas falhou no ponto principal de Olavo: a sustentação interna.

Enquanto o Grupo Prerrogativas tem "os seus" dentro dos tribunais brasileiros, a direita tentou usar uma força externa (EUA) para dobrar uma instituição interna (STF) sem ter bases sólidas aqui dentro para segurar o tranco. O resultado foi uma sanção efêmera que, ao ser retirada em dezembro, acabou fortalecendo a narrativa de "soberania nacional" do governo atual.


Como uma Militância Organizada agiria diferente?

Se a direita tivesse uma estrutura como o Prerrogativas, a estratégia de 2025 não seria apenas "pedir ajuda aos EUA", mas:

  1. Guerra de Pareceres: Ter centenas de professores de Direito renomados publicando diariamente teses que anulassem os argumentos de Moraes, criando um "clima intelectual" de ilegitimidade que atingisse a classe média jurídica.

  2. Infiltração Burocrática: Ter militantes ocupando cargos de assessoria técnica no STF, no TSE e no Ministério Público, funcionando como "freios e contrapesos" internos.

  3. Coordenação Logística: O lobby internacional (Magnitsky) seria apenas a cortina de fumaça; a ação real seria a drenagem sistemática de recursos e o travamento de pautas legislativas no Congresso, de forma fria e técnica.

Conclusão: O Grupo Prerrogativas é o exemplo de que a "luta de classes" ou "luta ideológica" se vence nos corredores de Brasília e nas redações, não apenas nos algoritmos do X ou em lives da Flórida.


Vamos voltar na análise de militância jurídica. Deixei aqui para organizar o texto e não perder a linha de raciocício. No início serviu como introdução.


1. A Formação de um "Prerrogativas da Direita"

Após as derrotas estratégicas de 2022-2025, o movimento conservador entende que "gritar na internet" não altera sentenças. A formação de um corpo de juristas de direita exige três pilares que estão começando a ser erguidos:


  1. Institucionalização do Pensamento: Não basta ser advogado; é preciso ser acadêmico. A estratégia para 2026 envolve o financiamento de institutos de Direito que publiquem em revistas especializadas, criando o que Olavo chamava de "massa crítica". O objetivo é que, quando um juiz conservador der uma decisão, ele tenha doutrina técnica para se embasar, e não pareça um "militante de toga".

  2. Recrutamento na Base: Infiltração em centros acadêmicos e na OAB. A direita percebeu que perdeu a OAB por WO nos últimos anos. O foco agora é retomar seccionais estaduais para garantir que a Ordem não seja usada apenas como braço de apoio ao governo.

  3. Rede de Solidariedade e Financiamento para a criação de um grupo Prerrogativas: Criação de fundos privados de defesa para garantir que advogados que defendam pautas de direita não sejam "asfixiados" financeiramente ou perseguidos pela corregedoria sem suporte.


Aqui houve um vislumbre de organização de militância jurídica com as eleições para a OAB 2025

As eleições para as seccionais da Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) ocorreram em novembro de 2024, definindo as presidências para o triênio 2025-2027. Esse pleito foi marcado por uma intensa polarização ideológica, com chapas conservadoras e bolsonaristas buscando capturar o controle das entidades, que exercem influência econômica (via Caixas de Assistência) e política (defesa de prerrogativas advocatícias). O ex-presidente Jair Bolsonaro se envolveu diretamente, gravando vídeos de apoio e apelando para que advogados não votassem em "chapas de esquerda", criticando o Judiciário como "ditatorial". Apesar da mobilização, as candidaturas bolsonaristas sofreram derrotas em várias seccionais chave, revelando fragmentação interna no campo da direita e resistência da OAB à cooptacao partidária.


A disputa entre chapas bolsonaristas foi particularmente evidente em São Paulo (OAB-SP), a maior seccional do país, onde duas listas conservadoras competiram entre si, dividindo o eleitorado de direita. Em outras regiões, como Distrito Federal (DF), Paraná (PR) e Santa Catarina (SC), houve candidaturas isoladas apoiadas por Bolsonaro, mas também sem vitórias. Em 2025, não houve eleições gerais para presidências seccionais (o próximo ciclo é em 2027), mas surgiram tensões internas, como a disputa pelo controle da Caixa de Assistência dos Advogados (CAA), sem evidências claras de envolvimento bolsonarista.


A Disputa em São Paulo: Fragmentação Bolsonarista

A OAB-SP, com cerca de 320 mil advogados aptos, foi o epicentro da polarização. Seis chapas disputaram, mas duas delas se destacaram pelo perfil conservador e laços com o bolsonarismo: a de Alfredo Scaff Filho (com Tiago Pavinatto como vice) e a de Caio Augusto Santos (com Ângela Gandra Martins como vice). Ambas buscaram apoio da direita, mas trocaram acusações mútuas, o que enfraqueceu o bloco.


  • Chapa de Alfredo Scaff: Posicionou-se como defensora ferrenha das prerrogativas advocatícias contra o STF, criticando a OAB por "não proteger advogados". Recebeu elogios diretos de Bolsonaro em vídeo, que o destacou por supostas violações sofridas no Judiciário. A campanha contou com figuras como o ex-juiz Tomé Abduch e o apresentador Luis Ernesto Lacombe. Foco em temas como "defesa da democracia" e críticas ao "poder ditatorial".

  • Chapa de Caio Augusto Santos e Ângela Gandra: Ângela, ex-secretária nacional da Família no governo Bolsonaro, trouxe endosso de bolsonaristas como Nise Yamaguchi, Estevam Hernandes e Julio Casares (presidente do Corinthians). Acusou a gestão atual de Patrícia Vanzolini de perseguição ideológica, citando o adiamento de um julgamento contra Ives Gandra Martins (pai de Ângela) por suposta incitação a golpe. Outra munição foi a defesa de Thiago Brennand (condenado por estupro) por Vanzolini, vista como contradição à bandeira feminista da OAB.


    Essa rivalidade interna dividiu votos: as chapas conservadoras somaram menos de 20% dos válidos, enquanto a vencedora, "Sempre em Frente" de Leonardo Sica (atual vice-presidente, apoiado pela situação e ligado ao PL de Valdemar Costa Neto), obteve 52,48%. A eleição foi online pela primeira vez, com abstenção de 21,94%. A fragmentação ilustra a dificuldade do bolsonarismo em unificar forças na OAB, onde temas institucionais (como modernização e inclusão) prevaleceram sobre pautas ideológicas.


    Resultados em Outras Seccionais Chave

    Em outras regiões, as candidaturas bolsonaristas foram derrotadas apesar do apoio público de Bolsonaro. Abaixo, uma tabela resumindo os principais pleitos:

Seccional

Candidato Bolsonarist

Apoio de Bolsonaro

Resultado

Vencedor e % de Votos Válidos

São Paulo (SP)

Alfredo Scaff (4º lugar)

Vídeo de apoio criticando STF

Derrota

Leonardo Sica (52,48%)

Distrito Federal (DF)

Everardo Gueiros (3º lugar)

Vídeo defendendo "julgamentos justos"

Derrota

Paulo Maurício Braz Siqueira (OAB para Todos, ~50%)

Paraná (PR)

Flávio Pansieri (2º lugar)

Indireto, via PL e Ricardo Barros

Derrota

Luiz Fernando Casagrande Pereira (48,33%)

Santa Catarina (SC)

Rodrigo Curi

Foto com medalha de Bolsonaro

Cassada pelo TRF-4 (falta de 30% de negros/pardos)

Juliano Mandeli (56%)

Em SP e DF, as derrotas foram vistas como rejeição à politização excessiva. No PR, o vencedor criticou a "mistura de política" na campanha de Pansieri, que usou acusações de laços com o PT para mobilizar. Em SC, a cassação prévia (por descumprimento de cotas raciais) impediu a votação, destacando falhas na composição das chapas direitistas.


Análise Geral e Implicações

A mobilização bolsonarista – com apelos de Bolsonaro para boicotar a "esquerda" e defesa da "liberdade" – não se traduziu em vitórias, contrastando com expectativas de controle institucional pós-2022. Isso reflete:

  • Fragmentação interna: Em SP, a disputa entre Scaff e Gandra dividiu o eleitorado conservador, mostrando falta de coordenação no bolsonarismo, similar a divisões vistas em eleições partidárias.

  • Resistência da OAB: A entidade, historicamente apartidária, priorizou pautas profissionais (plano de saúde, defesa de prerrogativas). Beto Simonetti, presidente do Conselho Federal reeleito em 2024, afirmou em 2025 que "esquerda e direita sabem que a OAB não será cooptada", enfatizando o "flertar com política como nocivo".

  • Em 2025: Sem eleições presidenciais, o ano viu disputas internas, como a proposta de controle maior da CAA pelas seccionais (aprovada em sigilo, criticada por violar autonomia). Não há indícios de viés bolsonarist, mas tensões ideológicas persistem em subseccionais ou conselhos.


No geral, as derrotas sinalizam um revés para o bolsonarismo na OAB, uma instituição estratégica para narrativas jurídicas e eleitorais. Para 2027, a direita precisará de maior unidade e foco em temas advocatícios para avançar. Mas já mostra nossa capacidade de organização tática e foco nos aspectos fundamentais do poder tão falados pelo Prof. Olavo. O desafio aqui é conseguer determinar as ações dos agentes que consigam vencer, já que podem ser embreagados pelo poder e o sistema, e resistir a pressão retaliatória das instância superir do poder judiciário.


O Uso do Prerrogativas pelo Governo Lula

O governo Lula transformou o Grupo Prerrogativas em uma espécie de "Conselho de Estado Informal". Para 2026, a atuação deles é cirúrgica:

  • A "Doutrina da Democracia Defensiva": O grupo trabalha na construção teórica de que qualquer oposição mais agressiva não é crítica política, mas "ameaça institucional". Isso permite que o governo utilize o aparato do Estado (Polícia Federal, Ministério da Justiça) para desarticular adversários antes mesmo do início oficial da campanha de 2026.

  • Controle de Danos Jurídico-Midiáticos: Sempre que o governo enfrenta uma crise de popularidade ou escândalo, membros do Prerrogativas ocupam os principais jornais (como Folha e Globo) com artigos técnicos que "normalizam" a situação, prevenindo que o Ministério Público ou a oposição parlamentar consigam tração jurídica.

  • Ocupação das Altas Cortes: O Prerrogativas atua como o principal "filtro" para as indicações de Lula ao STF, STJ e tribunais regionais. Em 2026, o governo espera ter uma maioria absoluta de magistrados que compartilham da mesma visão de mundo do grupo, tornando qualquer tentativa de "impeachment" ou investigação contra o Executivo juridicamente impossível.

Frente de Ação

Estratégia do Governo (Prerrogativas)

Desafio da Direita (Em construção)

Poder Judiciário

Totalmente infiltrado e alinhado.

Tentando criar "ilhas de resistência" em instâncias inferiores.

Narrativa

"Defesa das Instituições" vs "Extremismo".

"Liberdade de Expressão" vs "Censura".

Operação

Ação preventiva (impedir candidaturas).

Ação reativa (tentar anular condenações).

Diplomacia

Alinhamento com a burocracia global (ONU/UE).

Dependência excessiva de líderes isolados (como Trump).

O Ponto de Ruptura

Olavo de Carvalho dizia que "a política é a casca da cultura". O governo atual domina a casca e o miolo (cultura e judiciário). A direita, em 2025, está correndo atrás do prejuízo para criar sua própria "elite" que possa, no mínimo, equilibrar o jogo técnico em 2026.


O desafio: A direita ainda sofre com o personalismo. Enquanto o Prerrogativas serve ao "projeto" do PT, a militância jurídica da direita muitas vezes se divide entre diferentes lideranças (Bolsonaro, Tarcísio, Caiado), o que enfraquece a unidade de comando necessária. Por isso precisamos organizar o Povo Soberano (os soberanistas) como o maior think tank e articulador estratégico do movimento no conservador.


2. Infraestrutura de Comunicação Antifragil sutentaria o governo

O movimento conservador dependeu excessivamente de plataformas de Big Tech (YouTube, X, Instagram), que são vulneráveis a bloqueios judiciais. A militância organizada teria construído:

  • Redes Proprietárias: Servidores próprios e aplicativos de comunicação criptografados fora da jurisdição nacional.

  • Capilaridade Offline: Um sistema de rádio comunitária, jornais impressos locais e boletins distribuídos em igrejas e sindicatos, garantindo que a narrativa do governo chegasse ao povo mesmo se a internet fosse cortada ou censurada.


Esse ponto já foi detalhado na divisão acima: Veja aqui GRANDE MÍDIA


3. Logística de "Pressão Máxima" (Poder de Coerção)

Manifestações de domingo na Avenida Paulista têm valor simbólico, mas pouca eficácia tática contra o "sistema". Uma militância profissional teria focado em:

  • Greves Estratégicas: Coordenação com setores vitais (caminhoneiros, produtores rurais, profissionais de logística) para paralisações cirúrgicas em resposta a atos do Judiciário, forçando um recuo institucional através do impacto econômico imediato.

  • Ocupação de Espaços: Em vez de apenas protestar, a militância trabalharia para colocar "seus quadros" em cargos técnicos de tribunais, universidades e redações de grandes jornais — a chamada ocupação de espaços.


4. Inteligência e Contra-Inteligência

Uma militância organizada funcionaria como um serviço de inteligência civil:

  • Dossiês e Monitoramento: Mapeamento de vulnerabilidades de adversários políticos e antecipação de operações policiais através de fontes infiltradas.

  • Controle de Narrativa: Capacidade de lançar contra-provas imediatas para desmentir acusações de "fake news" ou "atos antidemocráticos", mantendo a base coesa e impedindo a desmoralização pública do líder.


Por que isso não aconteceu?

Para Olavo, o governo Bolsonaro tentou lutar uma guerra moderna com um exército de voluntários sem treinamento. Enquanto o "inimigo" possuía burocratas de carreira, juízes vitalícios e mídia profissional, o movimento bolsonarista possuía apenas influenciadores. Sem uma "cabeça" (elite intelectual) para planejar essas células, o "corpo" (a massa) reagiu apenas por instinto, tornando-se um alvo fácil para desarticulação jurídica.

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Em destaque

A Iniciativa Povo Soberano é um movimento nacional-populista de viés conservador e inspiração bolsonarista e olavista. Nosso intuito é sistematizar as ideias conservadoras dispersas em várias iniciativas semi-organizadas e difusas na sociedade. Queremos transformar a maior força social e política dessa década em poder institucional e estratégico, para que nossas conquistas eleitorais e populares possam ser transformadas em poder político de fato e perene. Assim, o movimento ganha envergadura institucional e resiliência na guerra política.

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